
Os desafios para a distribuição da vacina contra a Covid-19
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Agosto 26, 2021Fortaleza tem hoje 113 pontos de vacinação e já ultrapassamos um milhão de doses
Escrito por Klycia Fontenele – Arte de Raphaela Façanha
Fila da vacina. Ansiedade misturada com a alegria de fazer parte da turma do Zé Gotinha. Lembranças de uma infância nos anos 1980 quando, segurando a mão de meu pai, eu esperava a minha vez na fila da vacinação… Lembro o dia em que no lugar das gotinhas veio uma injeção; bem esquisita por sinal! E claro! Fiquei desconfiada e não quis tomar vacina. Mas, lembro também que fui convencida.
No auge dos meus 5 anos, Zé Gotinha me explicava que daquela vez seria injeção, mas seria bem rápido e eu ficaria protegida. Fiquei tão extasiada com a presença do meu amiguinho ali, na minha frente, que esqueci até a pistola de vacinação, feita de ar comprimido. Tomei coragem e me deixei vacinar em meio aos olhares cúmplices de meu pai e a enfermeira.
Quarenta anos depois, estou novamente numa fila de vacinação. No drive thru na Arena Castelão, espero minha vez. Ansiedade e alegria se misturam à esperança de ver o fim da pandemia por Covid-19, e à tristeza pelas mortes acumuladas no país (mais de 516 mil brasileiros no final de junho). Ocupo o tempo observando aqueles que ali trabalham. Orientando, conferindo documentos, registrando nomes, anotando fichas e cartões, vacinando… Profissionais da saúde que incansavelmente assumiram a tarefa de vacinar um país de dimensões continentais.
Emocionada. Peço permissão para registrar o momento com uma foto que correria minhas redes sociais, junto com os dizeres #VivaoSUS, #VemVacina e #ForaBolsonaro… “Tudo bem. Só peço que não fotografe o meu rosto.”. Foi o pedido educado que recebi da enfermeira. Era um direito daquela profissional que eu respeitei, para em seguida, agradecer por ela estar ali, trabalhando no feriado de Corpus Christi.
Em Fortaleza, são 113 pontos de vacinação, entre 100 postos de saúde e 13 outros pontos extras (3 shoppings, 3 policlínicas, os 4 Cuca, Centro de Eventos, Sesi Parangaba e Arena Castelão); além do atendimento domiciliar. Equipe numerosa trabalhando de domingo a domingo, coordenada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS), de Fortaleza, em articulação com a Sesa (Secretaria de Saúde do Estado do Ceará). Durante a semana, em cada posto de saúde, ficam um enfermeiro vacinador e, pelo menos, dois ou três profissionais na triagem e no registro. Já no final de semana, a equipe aumenta, porque há postos com três, quatro e até seis salas de vacinação.
“Nossa carga horária aumentou devido à vacinação. Estamos trabalhando também no final de semana.”, diz uma profissional da SMS, que preferiu não se identificar. Exausta, a profissional sabe da situação limite pela qual todos passamos. “Estamos vivendo uma situação muito delicada. A pandemia mexeu com todos e isso pode ter contribuído…”. Nossa profissional se refere às situações de agressões verbais e até físicas que ela e outras profissionais vêm sofrendo enquanto realizam seu trabalho.
É inacreditável que além do cansaço, da tensão e do peso da responsabilidade que tomam conta dos dias desses profissionais, eles ainda sejam atacados. Agredidos por uma violência arrogante e gratuita, fruto da ignorância que torna os dias atuais mais sombrios. Talvez, porque eles sejam a réstia de luz, que nos anima a acreditar que esta pandemia vai passar, com o empenho da ciência e daqueles que nela confiam.
Pior! É revoltante saber que os ataques trazem outras motivações, como o racismo estrutural. “Eu estava vacinando e atendi um senhor. Ele disse que era forte, em tom agressivo, e me deu um tapa nas costas… Acho que foi preconceito devido eu ser negra.”. Relata o fato que aconteceu com ela em um dos plantões que fez. “Acho que nós, profissionais da saúde, deveríamos ser mais valorizados e respeitados. Estamos nos dedicando ao máximo, e é muito cansativo. Ficamos exaustos.”, finaliza.
Em 1994, o Brasil recebeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) o certificado de erradicação da poliomielite (paralisia infantil), mas o último caso foi registrado em 1989… Em 2021, o controle da Covid-19 ainda é uma incógnita que esbarra na pretensão e irresponsabilidade de vários “cidadãos de bem” e governantes. Mas, já ultrapassamos um milhão de doses aplicadas em Fortaleza. E continuamos avançando. Quanto aos profissionais de saúde, de hoje e de antes, minha gratidão e respeito.
Em tempo!
De acordo com os dados do IntegraSUS, portal de transparência da Sesa, técnicos e auxiliares de enfermagem lideram os índices de contaminações e de óbitos por Covid-19 no Ceará. São 6.340 infecções e 19 mortes contabilizados até o último dia 21. Apesar de na segunda onda da pandemia, tenha diminuído o número de contaminações pelo novo coronavírus entre os profissionais da saúde, já são 23.820 casos confirmados e 90 mortes.
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